Aqui começa a segunda parte do Comming Up Next – A Luta da Noite: UFC 214, que vai rolar hoje mesmo (sábado de 29 de Julho) em Anaheim.

Na primeira parte falei sobre a luta principal da noite, a revanche entre Daniel Cormier e Jon Jones em uma luta que vale o cinturão do peso Meio Pesado (até 93kg).

Dessa vez falarei do co-main event, a luta pelo cinturão do peso Meio Médio (até 77kg) entre o campeão Tyron Woodley e nosso querido jiujitero Demain Maia.

Tyron Lakent Woodley ou “The Chose One” nasceu em 1982 no Missouri, ganhou diversos campeonatos de luta olímpica quando jovem e durante sua estadia na universidade do Missouri, sendo condecorado como atleta da primeira divisão de Wrestling. Sua carreira de MMA decolou rápido vencendo sua primeira luta pouco tempo depois de começar seus treinamentos. Woodley quase passou na triagem para o TUF 9, mas foi retirado no corte final. Surgiu para o mundo no extinto Strikefource, posteriormente comprado pelo UFC, vencendo o embate por finalização ainda no primeiro round. Seu nome atingiu novo patamar ao disputar o cinturão dos Meio Médios com Nate Marquardt em Junho de 2012 no Strikefource Rockhold vs Kennedy. Na ocasião foi derrotado, a primeira da carreira. Sua luta seguinte já foi na maior organização do mundo, no UFC 156.

Crédito: Zuffa LLC

Woodley tem como característica mais marcante em seu estilo de luta; a explosão muscular que o permite avançar com velocidade e com potência. Tende a sempre lutar para frente, sendo muito agressivo. Usa bem sua envergadura que é desproporcional para seu tamanho, o Escolhido tem 1,75 de altura (olha, ele é do meu tamanho) e 1,88 de alcance (ok, ai ele ganhou), lançando bons overhads, cruzados por cima da guarda dos adversários e diretos, combinados com jabs, em sequências dos “combo um dois”. Apesar do background na luta olímpica o campeão do UFC se sente muito confortável com a luta de pé, se aproveitando da sua força e potência incomum. Mesmo assim, quando é necessário Woodley coloca a luta no chão e possui um Ground and Pound perigoso. Seus pontos fracos são sua movimentação limitada quando na defensiva – ele não gosta de ser pressionada, não sabendo sair desses momentos com segurança.

Demain Augusto Maia Baptista, ou apenas “o cara que te mochila” nasceu em São Paulo em 1977. É um lutador super premiado de JJB, ganhando vários prêmios pelo mundo, como o ADCC na categoria até 87kg ou o campeonato mundial por cinco vezes. No MMA sua carreira começou confusa, apesar de ganhar sua primeira luta, não deu continuidade ao esporte voltando a pratica-lo apenas 4 anos depois. Alternou nessa época entre o MMA e um campeonato de Jiu Jitsu. Apareceu para o grande público de MMA quando estreou no UFC com uma vitória via mata leão no primeiro round no UFC 77 em 2007. Competiu na categoria Peso Médio (até 84kg) tendo disputado e sendo derrotado pelo campeão da mesma, Anderson Silva no UFC 112. Em 2012 o atleta da arte suave desceu de categoria, passando a integrando plantel dos Meio Médios derrotando Dong Hyun Kin por TKO. Desde então foram 11 lutas e apenas duas derrotas.

Crédito: Cooper Neill

Maia desde que passou a se dedicar em aplicar seu jogo de grappling em suas lutas conquistou mais vitórias do que antes, quando buscava uma luta mais polivalente, fazendo uso mais extensivo da trocação. A mudança ficou visível na sequência de vitórias por finalização ou por domínio total, até receber o posto de desafiante ao título dos Meio Médios. Dono do jogo de chão mais adaptado ao MMA, o Mochileiro do UFC desenvolveu técnicas integradas de JJB e Wrestling que tornam cada entrada de queda em um risco real ao seu adversário, uma vez que no chão Maia possui um arsenal de habilidades que usa o único propósito de obrigar seu adversário a desistir ou ser sumariamente desmaiado. Apesar disso, enquanto no chão, Maia, o maior tubarão do oceano, em pé ele não é um lutador muito experimentado, sua movimentação é básica, além de ser um trocador estático. Não possui muito cacoete para a luta de pé e geralmente a usa como uma ponte para a aproximação, momento onde pode começar a usar seu jogo de grappling. Nos Meio Médios seu tamanho é uma vantagem e acima de tudo, ele sabe como usar isso.

Depois de pensar um pouco, escrever um texto sobre – e apagar – venho aqui dar minha opinião final.

O campeão vai vencer.

E é estranho escrever isso, não por Demain ser brasileiro, estou longe de ser um patriota desses. É duro escrever isso pela trajetória do cara, um grande atleta, humilde que colocou o grappling num patamar que nunca antes esteve. Ele é o maior atleta de luta de solo que já vimos no MMA, o que soube integrar com a melhor qualidade a soma das artes de luta agarrada para as artes marciais mistas. A história do esporte, por mais curta, ou longa que alguém enxergue não existe outro cara que é mais impactante para o grapling que Demain Maia, ninguém fez o que ele faz, e até o presente momento, não surgiu outro que consiga replicar. Ele é um gênio. E não ver um cenário onde esse gênio ganha é meio chato, por isso é estranho escrever sobre isso.

Para não dar uma de louco tenho que ser sincero. Por isso Woodley deve vencer. Para mim essa luta é um 60% a 40% para ele, o atual campeão. E tenho os motivos para isso. Vou contar aqui como acredito que a luta se desenrola. São três cenários.

Crédito: Jeff Bottar

1) TKO e Still; Woodley usa suas armas mais mortais; a explosão muscular, os golpes de grande amplitude, como cruzados ou overhands, que lança sempre avançado, dobrando o poder do impacto, ou suas sequências de “jab” e “direto”, que também faz avançado para frente. O primeiro round é o momento mais perigoso para isso, é quando ele está na melhor forma, onde tudo está perfeito. A potência e seu ímpeto atingem o brasileiro, como já atingiu vários outros atletas, o derrubando, ferindo-o. Talvez acabe ai mesmo, no primeiro round. Talvez precise de um pouco mais, afinal o brasileiro e desafiante é um cara grande, resistente, mas suportar por muito tempo vai acabar se mostrando impossível. Nocaute técnico no primeiro ou segundo round by potencial e explosão muscular.

2) DU e Still; o campeão tenta mesmo acabar com a luta pela via rápida. Mas às vezes querer não é poder. Maia lutou contra adversários duríssimos, foi surrado por várias vezes, perdendo pela diferença física, e mesmo assim só foi nocauteado uma única vez em 25 lutas e 6 derrotas dentro do UFC. Ele vai aguentar nesse cenário. Venderá a luta por um preço caro. Woodley não conseguirá derrubar maia com seus golpes, mas vai pontuar, com volume e contundência, inclusive ao defender as entrada de queda do desafiante, que serão barradas pelo dono da maior porcentagem de defesa de quedas de toda a organização. Talvez até seja derrubado, mas vai levantar antes que o desafiante possa produzir algo.

Maia terminará a luta exausto assim como o campeão, os lutadores então vão se abraçar, e o Escolhido dirá que nunca imaginou que alguém pudesse lutar daquela forma, agradecer a batalha e dormir ainda campeão.

Entendam. Woodley tem seus problemas, ele raramente se move para os lados, ou para trás, tende a lidar com a trocação de duas formas (tende, mas as vezes não faz isso) ou ele ataca ou ele tenta quedar. Ele é o agressor, mas sabe usar bem seus braços longos, seja com cruzados de direita como contra golpe, seja em upper que freiam os avanços inimigos, seja colando e derrubando. Até seu gás é uma arma, se pensarmos que ele mantem o ritmo por cinco rounds – ok diminui, mas não é muito aceitável. Como posso ver o brasileiro ganhar? O campeão é mais completo em pé, tem um boxe alinhado, tem potência, gás, é atlético e tem o centro de gravidade baixo, pode evitar as quedas. Talvez falar que 60% das chances para ele seja pouco, talvez 70% ou até 80%, seja o certo.

Mas olha que engraçado. Não é 100% de certeza de vitória. No MMA nunca é 100% de certeza de vitória. Onde existe 1% de chance ainda há esperança. Então quando há 20%, 30% ou 40%, tem esperança pra dar e vender. Por isso o terceiro cenário existe, porque é o cenário da esperança.

Crédito: Josh Hedge

3) FINALIZAÇÂO e AND NEW; aqui Maia vai ter êxito, a estratégia vai ser certa. Recuar contra o Escolhido não é uma boa opção, ele é um atleta forte e explosivo, que bate andando para frente, por isso corta o octógono em um instante, recuar para trás não vai fazer diferença. Maia vai circular na direção oposta do direto, cruzado e overhand de direita de Tyron e avançar para cima, partir para o infight, clinchar. Grudado e com o domínio do pescoço do campeão o desafiante tem a vantagem, a altura, a força e genialidade do maior grappling da história do esporte terão o caminha “Livre”. Se conseguir criar essa situação de vantagem na grade, onde ele terá mais apoio e será mais fácil cansar o campeão, melhor ainda, se não, mas conseguir leva-lo para lá, seria ideal. Na posição de superioridade, dominando o pescoço Demian só fica exposto a golpes de pouca amplitude ou tentativas de queda com pouco espaço para a alavanca da cintura de Woodley, em contra partida, ele poderá escolher como derrubar, ou como escalar a estrutura pequena e compacta que garantiu mais de 90% de defesa de quedas do Escolhido. Além disso, poderá usar os cotovelos, que foram a chave para a primeira derrota de Tyron, claro, dar joelhadas é perigoso, as cotoveladas devem ser usadas com inteligência, obrigar o campeão a abrir brechas para que a queda seja conseguida. No chão, por cima, não há nada que não impeça o brasileiro de vencer, nada que não seja o relógio. Por isso, não acho que a vitória venha no primeiro round – assim como se a luta, mesmo seguindo essa estratégia, chegue no quarto ou no quinto, o momento ideal é no segundo e terceiro, onde Maia ainda tem força e gás, e nenhum dos dois estará extremamente suado. Fazendo isso, tenho certeza que ele será capaz de dominar o campeão e finalizar. E já que estou narrando uma hipótese mais ousada, digo que será um Katagatame que fará o cinturão do Peso Meio Médio vir para o Brasil.

Às vezes a probabilidade só está ai para mostrar que o feito é mais incrível quando executado e, apesar de não ver isso acontecendo, sei que Demain Maia já provou que não importa quantos por centos ele tem de desvantagem na visão dos críticos, ele faz essa porcentagem não significar nada.

Cabe aqui até uma sugestão, um apelido, após essa vitória tão épica do brasileiro. Sugiro “Probability killer”, o assassino da probabilidade.

E quando isso acontecer, não vai haver maior grappler vivo, ou morto, no planeta.

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